terça-feira, 5 de novembro de 2013

Atração do dia 10/11 - "O Deus da Fortuna" (Coletivo de Teatro Alfenim/PB)


Dia 10/11 – domingo

20h30
“O Deus da fortuna” (Coletivo de Teatro Alfenim / PB)
Local: Oficina de Teatro da UEM
Recomendação etária: 10 anos
Duração: 105 minutos
R$ 10 inteira e R$ 5 meia


 O Deus da Fortuna é vencedor do Prêmio Funarte de Teatro Myriam Muniz/2010. Com texto de Márcio Marciano, criado em processo colaborativo com os atores do grupo, o espetáculo é uma parábola em chave cômica que utiliza como ponto de partida um argumento de Bertolt Brecht, retirado de seus diários de trabalho.



O dramaturgo alemão relata sua intenção de escrever uma peça inspirada na imagem desse deus, muito popular na China. Com base nessa alegoria, o Coletivo de Teatro Alfenim cria o
seu próprio Deus da Fortuna, totalmente identificado ao capital especulativo, e o faz surgir na propriedade de um capitalista à moda antiga, o Senhor Wang, para lhe revelar a “metafísica” do capitalismo financeirizado dos dias atuais. Afundado em dívidas em virtude da crise da produção do arroz e da seda, o Senhor Wang, manda erguer um altar em honra de Zao Gong Ming, o Deus da Fortuna, com a intenção de se salvar da falência. Porém as oferendas são inúteis e o proprietário vê-se obrigado a vender a própria filha a seu credor, como forma de amortização da dívida. Em meio aos rituais do matrimônio, o Deus surge à sua frente e lhe desvenda o futuro, com a condição de que seja erguido o grande Templo da Fortuna. O proprietário deixará as formas primitivas de acumulação do capital para dedicar-se à
especulação e aprenderá “como o ouro se transforma em pura aparência”. 



Sintonizado com as novas formas imateriais de acumulação do capital esse acumulador primitivo irá saldar suas dívidas e erguer um novo templo ao Deus da Fortuna, o templo da especulação financeira. Em tempos de crise sistemática do capitalismo, cuja lógica é a de se alimentar de trabalho não pago e da promessa fictícia de que o capital especulativo promoverá a felicidade futura, comprometendo não apenas as gerações de hoje como também as gerações vindouras, o Coletivo de Teatro Alfenim experimenta a comédia com o propósito de desmascarar a maquinaria teatral utilizada para escamotear a lógica criminosa do capital especulativo e seus derivativos “metafisicantes”.


FICHA TÉCNICA: 

Dramaturgia e direção: Márcio Marciano 

Atuação: Adriano Cabral, Lara Torrezan, Paula Coelho, Ricardo Canella, Suellen Brito, Vítor Blam. 


Direção de arte e figurinos: Vilmara Georgina 

Direção musical: Mayra Ferreira e Nuriey Castro 

Cenário: 
 Márcio Marciano 

Iluminação: Ronaldo Costa 

Produção executiva: Gabriela Arruda 

Realização: Coletivo Alfenim




Atração do dia 09/11 - "Brevidades" (Coletivo de Teatro Alfenim/PB)


 Dia 9/11 – sábado

17h
“Brevidades” (Coletivo de Teatro Alfenim / PB)
Local: Museu do Teatro Calil Haddad
Recomendação etária: 14 anos
Duração: 50 minutos
R$ 10 inteira e R$ 5 meia

“Brevidades”, o mais recente trabalho do Coletivo de Teatro Alfenim, contemplado com o Projeto BNB de Cultura/2010 e o Fundo Municipal de Cultura/2012, trata-se de um monólogo com atuação de Zezita Matos. O espetáculo tem como tema os insondáveis mecanismos de evocação e apagamento da memória produzidos pelo Mal de Alzheimer e comemora os 53 anos de trabalho da atriz.

Narra a história de uma ex-atriz que, impossibilitada de exercer seu ofício devido ao avançado estágio da doença, mistura ao tempo real do encontro com o público, evocações de seu passado, no qual personagens reais e da dramaturgia universal como Julieta e Ofélia, de Shakespeare, se fundem e se projetam como faces de uma persona múltipla.

Levar à cena os sintomas do Mal de Alzheimer e explorar poeticamente sua repercussão tanto na subjetividade de seu portador quanto na das pessoas de seu convívio, fazendo-o repercutir na afetividade da plateia, se justifica por proporcionar ao público dessa experiência um espaço íntimo de reflexão sobre as novas formas de nossa sociabilidade, marcada pela necessidade de uma re-assimilação solidária de nossos entes próximos, tornados “outro” sob o efeito deletério deste mal que ainda não compreendemos.













Ficha Técnica

Direção e Dramaturgia: Márcio Marciano
Atuação: Zezita Matos
Figurino e Direção de Arte: Vilmara Georgina
Produção Executiva: Gabriela Arruda

Atração do dia 09/11 - "Correntes" (LC Produções Cênicas/Maringá)


Dia 9/11 – sábado
20h30
“Correntes” (LC Produções Cênicas / Maringá)
Local: Auditório II – Unifamma (Av. Horácio Racanello)
Recomendação etária: 14 anos
Duração: 40 minutos
R$ 10 inteira e R$ 5 meia


O projeto “Correntes” nasceu do desejo da produtora e atriz Laura Chaves de voltar aos palcos após 13 anos sem atuar como atriz e trabalhando somente na direção de espetáculos adultos e infantis, sempre adiando esse retorno. Em 1998 participou da montagem do espetáculo “Em Família”(texto de Oduvaldo Viana Filho) junto com o amigo Luthero de Almeida. A necessidade de uma nova experiência a levou a ler alguns textos dramáticos, bem como a iniciar a busca pelos companheiros que poderiam participar dessa empreitada. 

A escolha do texto afirma sua crença em que o teatro tem papel importante na construção de um processo que possibilita reflexão e transformação social. E assim, após o conhecimento do texto escrito por Mayra Mugnaini, "Correntes Imaginárias", dá os primeiros passos desse projeto. Texto lido e alterado algumas vezes para melhor atender a proposta cênica. Tempos de pausa respeitados em decorrência de dificuldades pessoais e aí se vão quase três anos do início do projeto até o momento da estreia.

Durante esse período de idas e vindas, tanto o elenco quanto a direção tiveram que ser modificados por necessidades particulares. No final de novembro de 2011 a equipe se reuniu para construir o trabalho, reunindo os seguintes profissionais: Flávio Amado na direção e elenco inicial com Carla Almeida (atriz nas sete primeiras apresentações), Elizabety Barbosa e Laura Chaves. O figurino é de responsabilidade do design de moda André Chaves Peluso; o cenário é da arquiteta Dagmar Pugin e a iluminação de Zeton. Para a atual temporada o elenco foi modificado e a própria autora passa a vivenciar sua obra no palco – Mayra Mugnaini.

Com a disponibilidade de cada profissional que se propôs a trabalhar nesse projeto buscamos instigar o público por meio da expressão artística, provocando possíveis identificações que o levem à reflexão sobre as questões ligadas a vida, a morte, a velhice, ao amor, a ser feliz, o cuidar e o ser cuidado, as impotências e potências de se saber humano. 

Nos dia de hoje falar sobre as relações humanas passa pelas questões de como nosso país tem enfrentado o envelhecimento e todas as suas variantes.  A proporção de idosos vem crescendo a cada novo censo. Em 1991 as pessoas acima de 65 anos correspondiam a 4,8% da população. Em 2000 passaram para 5,9% e agora chegam a 7,4%, ou 14 milhões. O dado estatístico, segundo o Censo 2010, nos mostra como a questão do envelhecimento no país necessita de planos e ações que possam lidar com essa nova situação de maneira estruturada e madura.

Com o grande aumento da população idosa do país, o Alzheimer tem se apresentado de forma alarmante e para enfrentar a questão se faz necessário o conhecimento sobre o assunto.
A doença de Alzheimer foi descrita em 1906 pelo psiquiatra e neuropatologista alemão Alois Alzheimer. Ao fazer uma autópsia, descobriu no cérebro do morto lesões que ninguém nunca tinha visto antes. Tratava-se de um problema de dentro dos neurônios (as células cerebrais), os quais apareciam atrofiados em vários lugares do cérebro e cheios de placas estranhas e fibras retorcidas, enroscadas umas nas outras.

Essa doença é também conhecida como demência e erroneamente conhecida pela população como "esclerose" ou caduquice. É uma doença degenerativa do cérebro, cujas células se deterioram (neurônios) de forma lenta e progressiva, provocando uma atrofia do cérebro.

A doença afeta a memória e o funcionamento mental (por exemplo, incapacidade de raciocinar, de compreender e falar, etc.), mas pode também conduzir a outros problemas, tais como confusão, mudanças de humor e desorientação no tempo e no espaço. E faz diminuir a capacidade da pessoa de se cuidar (da higiene, do vestuário, de gerir sua vida emocional e profissional) não sabendo escrever e nem fazer contas simples e elementares.

O espetáculo “Correntes” trata do assunto sob um olhar artístico e a essência da proposta se dá nas relações humanas.  Na "mise em scène" a narrativa é utilizada como um convite à viagem a memória de cada um. A história atravessa as personagens em forma de um depoimento. A direção fez a escolha de não propor uma visão científica e terapêutica do processo degenerativo da doença, mas sim uma abordagem a partir da experiência emocional dos atores que visitaram doentes com alzheimer, imprimiram sensações e contam as suas relações e conflitos como "cuidadoras" de um personagem que sofre de alzheimer.

Ficha Técnica

Texto: Mayra Mugnaini
Direção: Flávio Amado
Elenco: Elizabety Barbosa, Laura Chaves e Mayra Mugnaini.
Cenário: Dagmar Pugin
Figurino: André Chaves Peluso


segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Atração do dia 08/11 - "O Primeiro Golpe" (Saindo da Coxia/Mandaguari)



Dia 8/11 – sexta-feira

20h30
“O primeiro golpe” (Grupo Saindo da Coxia / Mandaguari)
Local: Teatro Barracão
Recomendação etária: 12 anos
Duração: 60 minutos
Entrada franca
Parceria com o projeto Convite ao Teatro
Retirar ingressos 1h antes na bilheteria do teatro

A peça fala, entre tantas coisas, sobre o papel do ator, “esse outro tão eu mesmo”, sobre estar nesse lugar (o teatro) e “ser”, e ainda faz uma reflexão sobre a luta da imagem com a palavra. Sem descartar os próprios dilemas adolescentes, a direção de atores privilegiou o personagem que “se adapta” ao ator – fortalecendo as susceptibilidades e as possibilidades de cada um dos membros do grupo.

Não há uma história, propriamente, dentro da peça, mas várias intervenções sobre essas possibilidades de se construir um “corpo” dramático a partir da fragmentação e de pequenos “circuitos” que amarram o texto. As cenas se conectam a partir de um princípio: estar no palco e representar. O nome do grupo, por sua vez, forneceu o mote para potencializar o lugar onde tudo acontece: o palco, como metáfora de peso para a vida. Para chegar até ele, é necessário sair de outro lugar, a coxia: metáfora do que se esconde, do que antecede o desnudamento e da mentira.

O projeto que resultou na peça “O primeiro golpe” é uma parceria da Comunidade Social Cristã Beneficente, de Mandaguari, e da COMUDICAMAN - Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente de Mandaguari.

A Comunidade, fundada em 1984 pelo Dr. Osvaldo Alves, desenvolve projetos com crianças e adolescentes que envolvem esportes (judô e karatê), literatura (com biblioteca e Bebeteca), além de cinema e teatro.

“O primeiro golpe” foi elaborado a partir de discussões e de textos escritos pelos integrantes do grupo, adolescentes que tem entre 15 e 18 anos de idade. O projeto, iniciado em março de 2013, contou com a exibição de filmes, leitura de textos e alguns exercícios corporais. A expectativa era de estimular os alunos para a criação através de um entendimento de alguns processos teatrais e, assim, constituir um “corpo” para ser trabalhado.




Ficha Técnica

Direção: Paulo Campagnolo
Texto: criação coletiva
Figurinos: o Grupo
Cenário: Paulo Campagnolo
Execução de cenário: Sandra H.
Elenco: Amanda Galvão, Bruna Cassiano, Denise Alves, Fernanda Dallyane, Marcelo de Sá, Milena Silva, Suellen Malaghetta, Vanessa Prina e Vanessa Rissi.
Duração: 60min.
Classificação: 12 anos
A produção local é da Teatro & Ponto Produções Artísticas.


sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Atração do dia 07/11 - "Nada de Novo" (Parlapatões/SP)


Dia 7/11 – quinta-feira

Abertura Oficial
20h30
“Nada de novo” (Parlapatões / SP)
Local: Teatro Marista
Recomendação etária: Livre
Duração: 50 minutos
R$ 10 inteira e R$ 5 meia


“Nada de novo” estreou em 1991 e desde então vem realizando temporadas regulares, participações em festivais, mostras, apresentações de rua, etc.

Este espetáculo acompanha a trajetória do grupo, hoje com 21 anos de atividades, e é um de seus maiores sucessos, pois mantém durante todos estes anos  o espírito despojado que mantém aceso o estilo das atuações de rua do grupo.

Através do deboche, ironizam tudo e todos. Destacam-se os quadros “A luta dele contra ele mesmo”, “A aula de fazer rir” e “O troglodita”, mas a grande atração é a maneira como rompem os limites na busca de uma comunicação intensa com o público.

É um espetáculo com diversos quadros cômicos, no melhor estilo cabaré, com números circenses integrados ao teatro. Sua grande variedade de números muitas vezes permite que o roteiro seja alterado em sua ordem ou conteúdo conforme a apresentação.

“Nada de novo” é uma verdadeira colcha de retalhos em que tudo é costurado em torno de um tema aparentemente distante da comédia: a solidão humana.
Abordada através de um humor ácido, a solidão liga os vários quadros, o que dá o sentido geral ao espetáculo: de como o homem através do riso pode ver o mundo de outra maneira.

Os quadros são uma seleção do melhor do humor dos Parlapatões. Mostram todas as influências que os grandes comediantes exercem no trabalho do grupo. Enfim, é uma homenagem aos grandes mestres da atuação cômica.




A seguir, a lista dos números que integram o repertório mantendo a estrutura geral do espetáculo:

PRÓLOGO
Mistura de W. Shakespeare, Jean Cocteau, Jèrôme Savary e Bertold Brecht.

MALABARES
Com uma bola acompanhado pela música “Nada além”, com Orlando Silva.

CHAPÉU
Baseado em Karl Valentin.

LUTA DELE COM ELE MESMO
Totalmente chupado de Monty Phyton, que já chupou de Jacques Tatit.

AULA DE FAZER RIR
Devidamente plagiado e alterado do Show de Hollywood do grupo Monty Phyton.

PERDIDO
Inspirado na burrice de Jairo Mattos.

MUNDO CÃO
Baseado em fato verídico ocorrido com a Professora Thelma.

TROGLODITA
Uma cena autobiográfica.

U ISKIZITOW
Outras besteiras de Jèrôme Savary.

O PRIMEIRO MILAGRE
Adaptado de texto para rádio de Dario Fo.

SÃO TANTAS JÁ VIVIDAS
Do Rei




Ficha Técnica

Roteiro: Hugo Possolo                        
Direção: Hugo Possolo                       
Elenco: Raul Barretto, Hugo Possolo e Fabek Capreri e Hélio Pottes
Cenografia e Figurinos: Hugo Possolo
Sonoplastia: Agentemesmo Sound Star Track
Iluminação: Agentemesmo Light Designer
Operador de Som e Luz: Reynaldo Thomaz
Programação Visual: Agentemesmo Produções Gráficas
Produção Executiva: Erika Horn
Comunicação: Dhaianny Vieira
Secretária: Janayna Oliveira

Realização: Agentemesmo Produções Artísticas LTDA ME

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Arte 2013

Pelo segundo ano seguido, o artista plástico Paolo Ridolfi aceitou o convite para criar a identidade visual da Mostra de Teatro Contemporâneo. O resultado foi esse:

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Experiências com o teatro do AMOK

Por Julia Nascimento

 Se não for o amor, então é a bomba que vai nos unir (The Smiths)

Três peças do grupo carioca Amok fecharam a Mostra de Teatro Contemporâneo 2012. A primeira, Histórias de família, ambientada na antiga Iugoslávia, é a peça mais recente do grupo. Contextos tão diferentes não enfraquecem a relação direta da temática violência com o nosso cotidiano.

O mais novo trabalho do Amok Teatro passou por Maringá
O título Histórias de família pode sugerir narrativas da vida privada, conflitos intersubjetivos. Porém, a noção comum de família, como núcleo do privado, a par dos conflitos exteriores, parece não caber nesta peça. A violência na relação entre pai, mãe e filho(a) é produto de uma situação de guerra, intolerância e machismo.
 A narrativa é dividida em três momentos que se misturam, confundindo-se, como se fosse uma brincadeira de crianças se comportando como os adultos. É uma escolha quase metalinguística, já que evidencia a intenção de contar histórias. Histórias que tratam da violência buscando quadros comuns ao modelo tradicional de família de sociedade patriarcal: o pai provedor é a ligação da família com o mundo, enquanto a mãe funciona como mediadora entre pai e filhos.

Rosana Barros. Foto: Rafael Saes
A identificação, entretanto, não proporciona o mergulho total do espectador na trama. Afirmar que a narrativa é uma brincadeira de adultos, ver o rapaz dançando vestido de mulher - tão esdrúxulo que chega a ser cômico – e a presença da menina-cachorro no palco, garante ao espectador a ilusão cênica. Distanciamento necessário para a crítica.
O humor atinge o público justamente por ser transmitido a partir de cenas facilmente identificáveis pelo público. Essa identificação, reforçada pelo uso de expressões idiomáticas próprias do português, aproxima as narrativas vividas pela família às experiências familiares do espectador. Dá-se início da aproximação entre Brasil e antiga Ioguslávia – não estávamos tão distantes assim, afinal.
Vale lembrar que a violência não é somente física, é, principalmente, psicológica. E chega a tão ponto que culmina no desejo de eliminação dos representantes – dentro da família – desta violência: os pais. Ironicamente, no final de cada história, o(a) filho(a) mata os pais. As três experiências de morte – pais são mortos queimados, estrangulados e com tiros - podem representar a oposição da nova geração (filho) ao patriotismo exacerbado, aos moralismos antigos e intolerância que alimentam a violência. A morte dos pais possibilita a emancipação do sujeito em fuga do controle esmagador, além da debilidade nas relações em família.


Stephane Brodt e Beto Lemos em O Dragão. Foto: Rafael Saes
Em conjunto com Histórias de família e Kabul, O dragão faz parte da chamada Trilogia da Guerra. Na sexta-feira (24), em mesa redonda realizada pelo Professor Alexandre Flory (UEM), surgiu uma pergunta ao diretor Stephane Brodt a respeito da relevância de tratar a violência em Maringá, “uma cidade nem tão violenta assim”. Manchete no sábado (25) “Estudante da UEM é assassinado com oito tiros” é mais do que suficiente para responder a pergunta. Qual é a relevância de abordar a violência aqui? A mesma que tratá-la em qualquer outro lugar.
Aliás, é impossível ignorar a situação de bairros mais afastados como o Parque das Laranjeiras, Conjunto Ney Braga e Requião, além de cidades menores da redondeza, como Sarandi, onde se concentra um grande contingente da mão-de-obra da cidade.
 “Jerusalém é o mundo”. A fala da mãe judia em O dragão sintetiza este pensamento. O espetáculo aborda os conflitos entre Palestina e Israel. Melhor: os conflitos entre palestinos e judeus. Porque é focalizando o povo que o grupo Amok situa, novamente, a guerra no interior do núcleo familiar.

A atriz Márcia do Valle em cena de O Dragão. Foto: Rafael Saes
A peça orbita em volta da explosão de um ônibus, por um homem-bomba. A partir do relato do motorista, que ficou paraplégico, e da mãe de uma das meninas judias mortas pelo ataque, aproximam-se os dois povos pela dor da perda. “Onde estão as mães palestinas? (...) Somos todos vítimas da ocupação”, afirma a mãe judia.
A aproximação dos dois povos é materializada na cena em que os atores, que vivem os palestinos, apenas trocam de roupa para representarem os judeus, na frente do público. A troca de instrumento também é simbólica. A união, entre os dois povos, é contra o ‘dragão’ - deus dos mortos. Em nome dele se matam crianças.
O contexto de divergência entre Palestina e Israel é atualíssima. Segunda-feira (27), no dia posterior à apresentação da peça, circula a notícia “Israel prende três adolescentes por ataques a palestinos”. Três crianças explodindo pessoas.
Pensar em guerra é inevitável. Quando a guerra não se está declarada, pode-se afirmar a paz? O status do Brasil é de paz, mas em 30 anos quase 1 milhão de pessoas foram assassinadas. Números de guerra.

Cartas de Rodez, espetáculo mais premiado do Amok Teatro.
Foto: Rafael Saes
A terceira peça, encerrando a Mostra, traz as cartas escritas pelo dramaturgo, ator, poeta Antonin Artaud (1896-1948). A peça de 1998 é a mais antiga da Companhia, o espetáculo demonstra o intenso trabalho de expressão corporal do diretor Stephane Brodt.
Rodez é o hospício onde Artaud passou os últimos anos de sua vida. A ação, novamente, gira em torno da violência. O monólogo corresponde à situação de Artaud em Rodez, julgado louco por “um mundo de deformados”.
Estar louco é vibrar em frequência diferente da maioria, então se o mundo é o dos deformados, ser louco torna-se algo , “é bom estar doente”. Essa desarmonia entre o dramaturgo e o mundo ‘normal’ também se expressa por meio da música desarmônica e pelas gravações de uma voz angustiada. Trechos em francês, sem tradução, são usados em cenas que remetem ao tratamento de choque sofrido por Artaud e a sua psicose. O ambiente soturno é reforçado pela projeção de várias sombras do próprio Artaud, como se as figuras deformes e noturnas fossem os diabretes que lhe confundiam o juízo.
Foto: Rafael Saes
Apesar da expressão vampiresca, podemos perceber, a partir das cartas, um discurso lúcido. A biografia de Artaud é exposta por meio de um espetáculo metalinguístico, já que a pesquisa do grupo influencia, aliás, a montagem do espetáculo. São comuns denúncias de tortura – inclusive envolvendo tratamento de choque – em hospitais psiquiátricos. A violência e o sadismo, alimentados pelo poder ilimitado dos funcionários sobre os pacientes, suscita reflexões acerca de manifestações mais doentias da loucura humana.
Após assistir as três peças percebem-se algumas características próprias do grupo AMOK. Destacam-se aqui alguns destes. Os trechos encenados em outra língua, sem tradução, são uma ótima oportunidade para o contato do público com a cultura do povo representado. Apesar da mensagem desconhecida, percebe-se a energia e a cultura pela língua, música e dança.
Assim como nas duas outras peças, a importância da música é capital. A música pode ser considerada protagonista, já que não serve apenas como moldura da narrativa, mas auxilia na maneira como as histórias são narradas. É interessante pensar nestes elementos como marcadores culturais, que identificam o povo que está sendo tratado.
Por fim, na mesa redonda citada anteriormente, surgiu um comentário surpreendente: “A arte não serve para nada”. Depois de participar da Mostra de Teatro Contemporâneo só posso discordar.