terça-feira, 21 de agosto de 2012

Atração do dia 22/08 - "Cisco" (Grupo Echo/Maringá)


Fundado por Nara Dutra em 2010, em Maringá, o Grupo ECHO (EXPERIÊNCIA CONTEXTUALIZADA DO HOMEM) estreiou no Convite à Dança em setembro de 2010 com sua primeira concepção  coreográfica, “CISCO”. Com música assinada por Milton Nascimento, Zeca Baleiro, Oswaldo Montenegro e Lenine, roteiro de bailarinos intérpretes e coreografia de Nara Dutra, o balé ficará um mês em cartaz no Convite à Dança e percorrerá o Festival de Bento Gonçalves-RS. Um êxito que se pretende converter na concretude de uma sede própria, inaugurada em 2006. Mas, se a empatia com o público, o entusiasmo da crítica e o sucesso de bilheteria forem imediatos, a conquista de uma identidade artística própria, a sustentação de um padrão de excelência e a construção de uma estrutura capaz de garantir a continuidade deste Grupo a uma companhia de Dança Profissional em Maringá e o estabelecimento de metas de longo prazo serão frutos de árduo trabalho cotidiano.



Hoje, representado por 13 bailarinos, o Grupo de Dança Echo dá origem a Espetáculos de Dança Laboratoriais, sem que se perca de vista os traços distintivos do Grupo.
 
Direção Artística: Nara Dutra
Concepção Coreográfica, Cenográfica e Figurinos: Nara Dutra
Música: Milton Nascimento, Zeca Baleiro, Oswaldo Montenegro, Zélia Duncan e Lenine.
Bailarinos: Alexandra Delgado, Anderson Assumpção, Beatriz Galli, Isadora Prado, Fernanda Carvalho, Flávio Magalhães, Karenn Ticianel, Kelly Batista, Loraine Dutra, Naiara Coelho, Natália Almeida, Marcely Bressan, Tainara Bizoto








"O Rito" (Ingmar Bergman, 1969)



O Rito lida com uma trupe viajante chamada “Les Riens”, que são processados e convocados a uma interrogação, pois um de seus números é considerado grosseiramente indecente. Eles são confrontados com as acusações do juiz, que são extremamente vagas. A interrogação do juiz é dura e implacável, humilha os artistas e também os confunde, abalando a auto-confiança do grupo, que passa a se perguntar: “Quem somos nós? Qual é o significado das nossas vidas, isto é, da nossa arte?” 



Em uma série de cenas de grande tensão e poder dramático, Bergman deixa que os três artistas revelem a si mesmos para o espectador. Em cenas de paixão, de sangue, de escuridão, que são ocasionalmente quebradas por fragmentos de esperança e consolação, o autor oferece uma visão do que significa “ser um artista” e também do caráter sagrado e amaldiçoado da arte. 




"O Rito" (Riten) 
Ingmar Bergman
1969 / Suécia
Duração: 72 min
Recomendação: 16 anos


"O Rito" será exibido hoje em sessão especial às 23h50, no Cineflix Cinemas do Maringá Park. Entrada franca. 


segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Atração dos dias 22 e 23/08 - "Quem Não Sabe Mais Quem É, O Que É e Onde Está, Precisa Se Mexer" (Cia. São Jorge de Variedades/SP)


    
      Espetáculo criado em 2009 num projeto apoiado pela Lei Municipal de Fomento ao Teatro da cidade de São Paulo, “Quem Não Sabe,...” recebeu o Prêmio Shell na Categoria Especial por sua pesquisa e criação  e foi eleito a  “Melhor Estréia Teatral de São Paulo em 2009” pelo jornal Folha de São Paulo. Após três bem sucedidas temporadas na Barra Funda, em São Paulo, o espetáculo circulou pelo Brasil apresentando-se  em festivais (FIT Rio Preto – S. José do Rio Preto, Tempo Festival das Artes - Rio de Janeiro, Festival Nacional de Teatro da cidade do Recife e FIAC Bahia – Salvador).   Em 2011, o espetáculo recebeu o Prêmio Funarte Myriam Muniz de Circulação de espetáculos, realizando 10 apresentações em diversas cidades do Norte do Brasil. Em seguida, o espetáculo foi contemplado pelo projeto Ocupação Caixa Cultural,realizando temporada nas cidades do Rio de Janeiro e Brasília. Em 2012 o espetáculo viaja á Europa se apresentando á convite de 02 importantes Festivais Internacionais de Teatro de Portugal  o 35° FITEI 2012 (Porto x Guimarães) e a MOSTRA SÃO PALCO (Coimbra).


Sucesso de público e crítica, depois de mexer com as ruas do bairro da Barra Funda, em São Paulo e circular por diversos festivais Nacionais e Internacionais de Teatro, o espetáculo QUEM NÃO SABE MAIS QUEM É, O QUE É E ONDE ESTÁ, PRECISA SE MEXER chega a Maringá.  Com direção de Georgette Fadel, a peça ganhou forma a partir da pesquisa e improvisação sobre o universo de Heiner Müller. As peças do autor alemão, suas entrevistas e a intensidade de seu discurso são elementos que dão o tom ao espetáculo.

Em pouco mais de uma hora de peça, três atores: Mariana Senne, Marcelo Reis e Patrícia Gifford transformam o discurso de Heiner Müller em situações muito próximas do público. A direção musical de Luiz Gayotto também transforma algumas partes densas dos textos em imagens sonoras. Para Georgette Fadel, que assina a quarta direção na Cia, a poesia de Müller encantou todos os integrantes. “A simpatia foi imediata, principalmente por ele ser considerado o herdeiro e interlocutor de Brecht, por quem somos apaixonados”, conta a diretora.

Intervenção Permanente
A ação de QUEM NÃO SABE MAIS QUEM É, O QUE É E ONDE ESTÁ, PRECISA SE MEXER começa na rua, onde os três atores se encontram e levam o público até a lúdica e bem elaborada cenografia de Rogério Tarifa, um apartamento, ou melhor, um “aparelho revolucionário”. "Buscamos criar, de maneira metafórica, num apartamento, nossos mecanismos cotidianos, seus aspectos positivos e negativos e tentamos revelar alguns mitos e forças que permeiam nossa rebeldia, tédio e esperança de um mundo melhor", completa Georgette Fadel.

Complexo, mas acessível
Nos últimos 14 anos a Cia São Jorge de Variedades vem fazendo encenações e incursões em lugares alternativos: como albergues e a própria rua, absorvendo os personagens do local em suas encenações. Agora, é a vez do mais polêmico dramaturgo da pós-modernidade, o alemão Heiner Müller, considerado o herdeiro de Antonin Artaud e Bertolt Brecht. "Heiner Müller é complexo, mas colocado sob olhar simples, com jogo cênico, torna-se acessível", diz a diretora, “ele coloca nos textos o amargo de revoluções, explicitando a complexidade de nossos vícios e o contemporâneo de nossas frustrações, em textos muitas vezes jogados ao público como uma metralhadora.”

Georgette continua: “Sabemos que a revolução não foi fracassada e sim reprimida! Rosa Luxemburgo, por exemplo, foi brutalmente assassinada e jogada em um rio. Nossa geração, ou parte dela, cresceu ouvindo falar do fracasso da Revolução, o fracasso do sonho, alimentada pelas idéias de inutilidade e incapacidade de se lutar por algo, aliada a falta de sentido da vida. Fizeram-nos acreditar nisso e grande parte de nossos dias passamos tentando recuperar a certeza de que somos fortes e as coisas podem ser e serão transformadas. Nessa nova montagem a São Jorge se coloca dentro de um apartamento e pinta então, com lentes de aumento, o auto-retrato bem humorado, mas cruel. Temos  energia, vontade e clareza, mas estamos deslocados do centro da ação, presos nos muitos apartamentos. Do jeito certo, mas na hora errada e na hora certa, porém no lugar errado.”


HISTORICO DA COMPANHIA
Projeto coletivo, criado em 1998, com integrantes da Escola de Arte Dramática e da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (EAD/ECA-USP). O grupo desde sua origem , visa estabelecer por meio de investigações permanentes, um processo de lapidação da cena bruta, utilizando-se de artifícios e procedimentos simples e artesanais. Caracterizado pela diversidade de linguagem como reflexo de seu modo de produzir, transitam por uma intensa pesquisa de espaço (fechados e abertos), musical, de maneiras de se relacionar com a platéia e de criação dramatúrgica. A dramaturgia tem como tema principal a discussão de questões éticas inerentes à diversidade e os paradoxos da cultura brasileira, desde sua formação, da colonização à contemporaneidade.

Nesses 14 anos de existência, a realização dos projetos de pesquisa e montagem de espetáculos, foi possível em sua maioria, devido ao aporte financeiro de editais/prêmios de artes cênicas das esferas Municipal, Estadual e Federal do Brasil. Os trabalhos se desenvolveram numa primeira fase em projetos de ocupação de espaços públicos e/ou culturais  e a partir de 2007 se desenvolvem na sede do grupo,no Bairro da Barra Funda, em São Paulo.

QUEM NÃO SABE MAIS QUEM É, O QUE É E ONDE ESTÁ, PRECISA SE MEXER
Criação e Dramaturgia – Cia São Jorge de Variedades a partir da obra de Heiner Müller. Direção – Georgette Fadel. Elenco – Marcelo Reis, Mariana Senne e Patrícia Gifford. Assistente de Direção – Paula Klein. Direção de Arte – Rogério Tarifa. Direção Musical – Luiz Gayotto .Direção de Produção e Administração – Carla Estefan. Cenotécnico e Contrarregras – Glauber Pereira. Operação de Luz – Rodrigo Ramos. Assistentes de Produção – Isabel Soares e Ademir Pereira. Colaboração – Andre Capuano. Duração – 90 minutos. Espetáculo recomendável para maiores de 16 anos. 


Atração do dia 20/08 - "O Sono Profundo dos Negros Venenos" (Grupo Teatro de Câmera/Maringá)



O poeta austríaco Georg Trakl (1887-1914), considerado um dos maiores nomes da poesia expressionista e voz marcante da língua alemã no Século XX, teve uma vida breve e conturbada. O vício em drogas e a relação com a irmã Grete, que parece ter sido seu único amor, consumiram-lhe o espírito e possibilitaram o nascimento de uma poesia visionária, marcada por rupturas e imagens de grande força. Como farmacêutico, alista-se no exército e presencia os horrores da guerra. Depois de um surto diante de um batalhão de estropiados que ele teria de cuidar, sem as mínimas condições, tenta suicídio e é impedido por alguns soldados. Durante sua convalescença num hospital, escreve “Grodek”, um de seus poemas mais importantes e pintura devastadora sobre a sua experiência militar. Pouco tempo depois, acaba se matando com uma overdose de cocaína e barbitúricos em 03 de novembro de 1914. Grete cometeria suicídio dois anos mais tarde.

A peça “O Sono Profundo dos Negros Venenos” se propõe a interpretar, à luz das dúvidas e contradições, esse passado de horror e desejo, criação e morte, através de interjeições sobre a vida e a poesia de Trakl e a possibilidade de torná-las vivas no palco.

Grupo: Teatro de Câmera
Texto: George Trakl e Paulo Campagnolo
Direção, iluminação, cenografia e figurino: Paulo Campagnolo
Direção Musical: Geraldo Ribas e Paulo Campagnolo
Elenco: Joaquim dos Santos
             Clara Zwecker
             Clóvis Moura
             Rafaela Haddad
Piano: Geraldo Ribas
Poemas de Georg Trakl traduzidos por Alexandre Flory



sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Ou não!


O ator e diretor Luiz Paëtow em Peças / foto: Érica Campos

Exercício crítico por Julia Nascimento

O conhecimento só pode ser alcançado parcialmente, o que percebemos da realidade são fragmentos. Pedaços sem sentido (frases) que, concatenados, formam uma unidade (parágrafos). Essa é, basicamente, a primeira discussão colocada em cena. Peças (2005), escrita, dirigida e interpretada por Luiz Päetow, trata da assimilação fragmentada que se tem tanto do espetáculo teatral, como da ‘vida real’. A partir do texto de Gertrude Stein (1874–1946), o ator estabelece uma teoria do teatro como acontecimento coletivo de intercâmbio entre palco e público.

A tese é desenvolvida com constante quebras de expectativas. O ator focaliza o desejo e a espera do público pela ação, suscitando reflexões sobre dois acontecimento diferentes, mas interdependentes: o fazer e o assistir ao teatro. O discurso segue a mesma perspectiva fragmentada, ora lento e arrastado ora rápido e desconexo, sempre acompanhando o fluxo de consciência do ator. A fala acompanha os movimentos inesperados e mudança repentina de lugar.

A intenção do ator é a primeira barreira a ser vencida, o público, entretanto, ainda tem de lidar com a complexidade do conteúdo. Para o público não-especializado, Peças pode ser apreendida apenas parcialmente. Estão presentes conceitos complexos que se aproximam de discussões realizadas no campo da física quântica, a respeito de tempo, luz e som. Na sua adaptação desses questionamento, o ator ainda agregou um quarto elemento: a emoção.

Seguindo a abordagem do espetáculo de dança Ocorrências - dirigida pelo próprio Luiz Päetow -, a luz tem papel fundamental na narratividade da peça, selecionando o que o público pode ou não ver. Além de esconder ou revelar, a luz ainda pode criar efeitos de sombra, a fim de ilustrar a existência de dois tempos diversos: o da narração e o da narrativa. É possível pensar, ainda, na disparidade entre narrativa (o que acontece no palco) e tempo real (o que acontece fora dele), e como essa relação determina as emoções experimentadas pelo espectador.

É inevitável pensar na relação entre luz e existência. Quando o público fica escuridão, a luz ganha uma dimensão absurda, como se aquilo que não se vê estivesse sofrendo um processo de desconstrução, sem o seu conhecimento. Assim, o espectador espera pela ação, pois é só por meio dela que ele pode entender do que se trata o espetáculo e qual é o seu papel nele.

A ação dramática, substituída pelo fluxo de consciência, aproxima o ator do mágico. Ele utiliza as palavras para criar novas realidades - como a da pequena menina na chuva - e apresentar truques para uma platéia não acostumada com a fantasia. Retornam à memória as narrativas infantis e o prazer de esperar pelo próximo capítulo da história.

A identidade de Luiz Päetow se mistura à do ator em cena. Unem-se, portanto, suas impressões iniciais sobre teatro, sua experiência como ator, diretor e dramaturgo com a vontade de refletir o teatro em Peças.

Apesar do texto hermético, o ator incita questionamentos pertinentes: “O que te deixa nervoso, te incomoda durante um espetáculo? As coisas precisam ser assim? Ou não”. Ou não foi uma das expressões repetidas durante a apresentação. De um modo geral, Peças mostrou que o teatro não precisa ser de uma única maneira. É claro que suspender as certezas não é fácil, por isso o incômodo é inevitável. O que fazer quando nem o final do espetáculo é definido? Continuar sentado, levantar e sair? E os agradecimentos? O ator precisa agradecer e o público bater palmas. Ou não!

O criador em outro momento da obra / foto: Ines Arigoni

Julia Nascimento é graduanda do curso de Letras pela Universidade Estadual de Maringá (UEM) e integrante do grupo de pesquisa Crítica Literária Materialista.

(Texto escrito como exercício da oficina Cultura da Crítica, no âmbito da Mostra de Teatro Contemporâneo. Não possui caráter valorativo).

Ideias circulares

Paëtow em Peças / foto: Jorge Etecheber


Exercício crítico por Karla Morelli

O monólogo Peças, dirigido e interpretado por Luiz Päetow, tem seus atos na penumbra e somente por meio de um jato de luz, ora lanterna ora holofote, possibilita que o espectador visualize os acontecimentos em cena.

Peças narra as diferenças entre teatro palco e teatro plateia (espectador). Mostra um teatro de ideias que se é demonstrado através do desempenho do protagonista que aborda seus pensamentos e reflexões em relação ao que se é uma peça teatral.

O monólogo não tem cenário e é por meio das falas, dos gestos corporais e das luzes operados pelo protagonista que se dá toda a encenação.

Ao ler a sinopse, percebe-se que a peça é baseada na dramaturgia da norte-americana Gertrude Stein que abordava uma poética fora dos padrões, normas e formas estabelecidas como ideais pela sociedade. Desse modo, é através da desconstrução e sem marcas fixas que o monólogo faz com que o espectador se desloque de seu assento e siga o protagonista nas extensões do teatro.

O conteúdo exposto é mais acessível e há a compreensão de quem o assiste. Peças mostra a construção de uma identidade do protagonista, e faz com que a plateia reflita sobre quem é aquele, pensando: “Será que este é a protagonista ou será que apenas faz um discurso sobre o que pensa em relação ao teatro?”. Assim, há muitas indagações e ambiguidades quanto aos valores que Päetow quer atribuir por meio do que se é apresentado.

Como em Ocorrências e Abracadabra, ambas apresentadas na Mostra de Teatro Contemporâneo de Maringá, nota-se que a ideia central de Päetow é criar o desconforto e incomodar o espectador, pois há momentos do monólogo que o ator fica falando a mesma frase desconexa por diversas vezes, fazendo com que esta circule no pensamento de quem assiste.

Peças tem a duração de aproximadamente 90 minutos e possui final aberto para que o espectador crie suas próprias conclusões.

Karla Morelli é aluna não-regular de mestrado em letras na UEM e pós-graduanda em Arte e Educação pelo Instituto Paranaense de Ensino (IPE). Integrante e pesquisadora da Cia. Manipulando Teatro de Animações.

(Texto escrito como exercício da oficina Cultura da Crítica, no âmbito da Mostra de Teatro Contemporâneo. Não possui caráter valorativo).

Dissonâncias com causa e (pouco) efeito


A atriz Nathália Corrêa em Balaio / Rafael Saes


Exercício crítico por Alessandra Sardeto 

A peça Balaio, do grupo Balaio, de São Paulo, é composta de três cenas: O pai, A quadratura do círculo e Para narizes bem preparados. A primeira delas, encenada por Cristiano Salomão, Isabel Wilker e Mariana Delfini, trata do relacionamento “pai e filho”; a segunda, interpretada por Stella Prata e Carolina Sudati, abarca a posição radical de uma artista de circo sobre o mundo; a última delas, vivida por Camila Turim e Nathália Corrêa, é uma tentativa de atingir o público para mostrar a ele, e ao artista, o quanto é difícil encontrar uma expressão sincera e que transmita o necessário.

Promovidos pelo CPT (Centro de Pesquisa Teatral), coordenado por Antunes Filho, os fragmentos representam a busca estética por um novo fazer teatral, e talvez por isso seja desconhecidos e pouco acessíveis ao público em geral, comum, impossibilitando o reconhecimento (passagem do desconhecido para o conhecido) por parte deste.

Impossível saber se as buscas por novas formas e movimentos estéticos terão sempre resultados positivos para a criação do espetáculo. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades e formas, enquanto isso não se pode desconsiderar a recepção do material exposto ao espectador. Durante a apresentação, a impressão fixada foi a de que o teatro contemporâneo, com narrativa fragmentada, não linear, almejante do sentir, com poucos diálogos, pouca cenografia, é concebido para uma intelectualidade à parte (um mito justificável neste caso). Criou-se uma atmosfera de “bom-gosto”, ruptura e obrigação que não atinge o público em geral e nem corresponde à suas expectativas. Nunca foi tão difícil ler as entrelinhas da teatralidade. É uma injeção pouco efetiva.

É notável a linha tênue entre a busca por uma nova estética, a incompreensão do conteúdo e a desconexão com o público. Balaio faz pensar no modo de realizar teatro. A experimentação, esse laboratório constante do fazer teatral, é duvidosa pois ao mesmo tempo em que pode acarretar elementos cênicos comunicáveis, não impede uma criação inacessível e dissonante do tempo artístico, histórico, social e cultural da maioria.

Balaio permite indagações: “Qual é o limite para romper a forma? Estaremos sempre rompendo, buscando com qual finalidade? Quem irá ser atingido por essa estética? Rompe-se a forma, e o conteúdo fica à deriva, ou também é claramente propagado e compreendido?”. Apesar da globalização, vivemos em tempos de lacunas, ausências, fragmentações, sejam individuais ou sociais. Não cabe ao teatro aumentá-las.

Em Para narizes bem preparados, corações de galinhas são agregados à cena. A atriz costura-os a fim de tecer um colar, que depois é pendurado em seu pescoço. Sutilmente, o sangue da carne percorre o corpo da mulher. Em outro momento ela pisa veemente na carne do animal, provocando as sensações (desagradáveis ou apáticas) da platéia. A idéia em si é plausível, mas talvez provocasse mais efeito só como escultura, gravura ou colagem, e não como instrumento cênico. O uso de órgãos, ou mesmo de um peixe (literalmente) fora do aquário tornam-se desnecessários para provocar reflexão, reação ou sensações do público, já que há linguagens e elementos cênicos que dialogam e se conectam melhor com ele e com o espetáculo.

Alessandra Sardeto é graduanda do curso de Letras e Literaturas correspondentes, pela Universidade Estadual de Maringá.

(Texto escrito como exercício da oficina Cultura da Crítica, no âmbito da Mostra de Teatro Contemporâneo. Não possui caráter valorativo).