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segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Rapsódia por dois reais, ou “doi reáu”

Daniel Grajew e Lorena Lobato / foto: Rafael Saes

Exercício crítico por Marcele Aires

"Diverso é meu ritmo
Meu tempo meço por quilômetros de gerânios amarelos"


Os versos acima, da pernambucana Maria do Carmo Barreto Campello de Melo, resumem a capacidade expressiva de Lorena Lobato (SP) em Sem conserto. A atriz, com rica formação em teatro, dança e música, consegue criar uma personagem humanizada, que mede seu tempo pela música. São as notas do piano que demarcam suas decisões, suas idas e vindas e suas escolhas.

Eis uma “peça-concerto”. Ao longo do monólogo, um pianista toca obras de consagrados compositores, a exemplo de Liszt, Rachmaninoff, Beethoven, Bach, Mozart, Satie e Debussy. Sem dúvidas, a música funciona como impulso à catarse, aproximando os espectadores de Anna, a narradora-protagonista.

O espetáculo envolve por oferecer um tom bastante intimista: a plateia se vê diante de uma mulher, de preto, narrando episódios de seu destino. A luz como elemento cênico assume importância crucial: não apenas Anna fica à vista – ao seu lado, sempre, imponente, um piano. A mulher e o piano. Dessa relação surge um terceiro elemento: o filho. É ele o mediador da paixão da mãe pela música e os sonidos do instrumento musical.

Ao contrário do grande pianista Rachmaninoff, proveniente de uma nobre família russa, Anna nasceu em uma casa simples, cujos móveis e brinquedos eram carcaças de piano consertadas pelo avô. Entretanto, a narradora-protagonista conhece a música muito antes, já no ventre materno.

O texto/argumento, composto pela própria atriz, é notável. Anna tece consideração a respeito de como educar através da música: seu pequeno filho a reconhece nas canções de ninar, nos exercícios diários e nos treinos exaustivos ao piano; um verdadeiro operário que labuta em sobrevivência. E talvez seja exatamente “sobrevivência” a palavra-chave para decifrar Anna, essa mãe que foge dos padrões ao recusar a escola, retaliando a “arbitrariedade do Estado” como única alternativa de educação. A mãe, que fugiu da Rússia na adolescência em razão da prisão do pai e do avô na Sibéria e de um casamento forçado com um homem mais velho, imigra à Argentina com uma companhia de dança. Lá se vê “amparada” nas garras da prostituição. Engravida de um marinheiro que promete lhe tirar “da vida” – embora não realize o compromisso por jamais encontrar parada.

Sozinha no mundo, Anna vê o talento do filho como única possibilidade de sobrevivência. São os dedos do operário-menino a fonte de renda. A partir desse mote, cria planos e estratégias para transformá-lo num grande pianista. “Feliz mesmo é quem toca a Passionata, de Bethoven; a Rapsódia Húngara, de Liszt; Villa-Lobos; Rachmaninoff...”, discursa a narradora-protagonista, rechaçando a educação escolar, ainda que tanto esforço transforme o menino em uma criança reclusa, tímida e quase “autista”.

De fato, o “menino” – que na peça é representado pelo músico, arranjador e compositor Daniel Grajew –, não se relaciona com o público, pois a mãe o “protege” de qualquer interação. O fato de um homem feito atuar em seu papel ressalta o paradoxo de uma “criança” com esse tamanho todo obedecer cegamente aos desígnios maternos.

Quanto à movimentação, os personagens pouco se locomovem durante a peça – salvo quando Anna deixa o palco para voltar, vez ou outra, com uma dose de vodca na mão. A impressão é a de que a música erige como o único elemento cênico livre, ora se manifestando em acordes melancólicos (quando Anna narra sua infância na Rússia), ora tragicômicos (ao recorrer a expressões populares como: “Eu podia estar roubando, eu podia estar matando, mas estou aqui humildemente pedindo uma contribuição...”).

O que encanta no espetáculo é justamente o poder encantatório da narração aliado à música: eis a história de alguém que encontra no som do piano a possibilidade de transcendência num mundo cada vez mais raso, dominado pela cultura de consumo e pelo emburrecimento coletivo, entorpecido ao som de “Tchu, Tchá” e outras atrocidades do gênero...

Marcele Aires é professora de Literatura da Universidade Estadual de Maringá.

(Texto escrito como exercício da oficina Cultura da Crítica, no âmbito da Mostra de Teatro Contemporâneo. Não possui caráter valorativo).

 

Um concerto sem conserto

Lorena Lobato em Sem conserto / foto: Rafael Saes

Exercício crítico por Karla Morelli

É num misto de antíteses (alegrias e tristezas, clareza e escuridão, sucesso e derrota) que Anna, protagonista interpretada por Lorena Lobato, conta todo o seu percurso de vida.

O quase monólogo Sem conserto é a história de uma mãe que faz de tudo para que o filho, interpretado por Daniel Grajew, se torne um pianista de sucesso. Devido à exigência e educação, o garoto se torna só e vive para o piano, assim como a mãe tanto idealizava. Dessa forma, o “pequeno” pianista não tem acesso à escola, às brincadeiras, a amigos, enfim à vida em sociedade. A peça é toda desconstruída, há momentos de extrema alegria e outros de melancolia total; também há momentos trágicos e cômicos.

O cenário do monólogo apresenta somente um piano, mas conforme Anna conta seus relatos é possível visualizar mentalmente vários cenários e lugares que a protagonista passou em sua experiência de vida.

A peça começa e termina com a fala de Anna em tape, e no “recheio” a russa começa a narrar a sua própria história. Há momentos em que a protagonista fala de atualidades e depois, do passado, retornando aos momentos atuais: a narrativa segue num vai e vem.

Pelo fato de só pensar em piano, na sua vida e na relação com o piano, a russa é dada como louca e julga os tempos modernos: “Beethoven só se tornou um gênio porque naquela época não existia assistente social!”. Com a ideia de que só os loucos alcançam a glória, a mulher se desprende dos conceitos considerados “normais” para que assim consiga concretizar o seu objetivo que é o de tornar o filho um pianista de sucesso.

O espetáculo ganha amplitudes através da iluminação, do som do piano, das falas de Anna e das expressões corporais apresentadas. Sua forma é simples e sem muitos recursos visuais. A atriz Lorena Lobato representa muito bem a russa e faz com que todos entendam a mensagem mesmo sendo transmitida com o sotaque da língua materna da protagonista. A interpretação convence tanto que dá margem para o espectador pensar se a atriz tem esse sotaque mesmo. A personagem faz com que a sua história e a apresentação do filho ao piano lhe renda uma remuneração ao fim da peça, isso se dá intencionalmente, mas discretamente, fazendo com que o espectador colabore com qualquer quantia sem ser imposto a isso.

O ápice do espetáculo se dá quando a mãe retira uma das partes do piano enquanto o menino o toca. Nota-se que as entranhas do instrumento estão expostas e como estas reagem ao serem tocadas pelo pequeno pianista.

Pode-se dizer que a peça como um todo é um concerto sem conserto. Dessa forma, tem-se que é através de fazer com que o filho se torne um pianista de sucesso que a mãe o desconserta enquanto ser social.


Karla Morelli é aluna não-regular de mestrado em letras na UEM e pós-graduanda em Arte e Educação pelo Instituto Paranaense de Ensino (IPE). Integrante e pesquisadora da Cia. Manipulando Teatro de Animações.

(Texto escrito como exercício da oficina Cultura da Crítica, no âmbito da Mostra de Teatro Contemporâneo. Não possui caráter valorativo).

domingo, 12 de agosto de 2012

Liberdade inventada

A atriz Lorena Lobato / foto: Rafael Saes

Exercício crítico por Alessandra Sardeto

Música e teatro se combinam, trazendo emoções ao público que tem a oportunidade, raramente concedida, de literalmente conhecer as instalações internas de um piano e apreciar composições de Scriabin, Rachmaninoff, Liszt, Satie, entre outros. Com algumas luzes, dois objetos, e o talento musical de dois atores, o espetáculo cênico Sem conserto cumpre algumas funções do teatro: criticar, questionar, refletir sobre determinada realidade.

O piano está em cena. A história começa a ser contada por uma personagem que tenta o tempo todo convencer a si e ao público de que o trajeto de sua vida foi duro e sem oportunidades. Anna, interpretada por Lorena Lobato, fugiu da Rússia com uma companhia, pois rejeitava o casamento com um homem maduro e, sobretudo, não suportava as mazelas da guerra. Chegando à Argentina, descobriu que fora enganada, e estava em um cabaré. Rendeu-se à prostituição. Em seguida engravidou. Durante a gestação, Anna arquitetou um plano infalível: seu filho seria um grande concertista. Ele respiraria música, assim como ela fez durante a infância na casa de seu avô, um consertador de piano.

A música seria um trabalho como tanto outros que trazem sobrevivência para o homem. De forma militante e imperativa, ela projeta em seu filho, representado por Daniel Grajew, seu desejo de viver de música, amenizar suas frustrações e automaticamente poupa-o (segundo ela) da desgraça de ser livre. Além de ganhar dinheiro, o objetivo é fazer com que ele não fracasse e tenha uma função no mundo.

Anna é a coerção humana personificada. Se por um lado temos a mãe escolhendo por seu filho, temos um filho sem liberdade de escolhas. Ela segue um plano que julga coerente, segundo sua vontade, e traça um caminho para seu filho a fim de evitar uma escolha pior. Só o piano bastava para os dois, o resto era irrelevante, inclusive a opinião do acanhado pianista, que na encenação só interagia com o instrumento.

Para que o menino não se perca ela o exime da educação convencional, do convívio social, da boa alimentação e da felicidade, esta que considera um estado transformado em obrigação pela humanidade. A “russa” chega a indagar se Beethoven seria um grande músico caso seu pai não o tivesse obrigado a estudar demasiadamente, dia a dia. Apesar da postura antiética e amoral, a ex-prostituta nos faz pensar: somos livres? Até que ponto somos livres? O que se pode fazer com o mar de liberdade? Se a sociedade, através da escola, cria as pessoas para o trabalho, por que ela não poderia criá-lo para a música? Não há conserto. Para Anna a liberdade não existe, é uma invenção, ou um labirinto.

O papel da música como arte é discutido. Por que não é valorizada como instrumento de ensino, se é de engrandecimento intelectual, pois exercita inúmeras faculdades do indivíduo, inclusive a de sentir? Por que essa arte não pode ser usada como ferramenta de trabalho?

O monólogo de Anna possui perspicácia, comoção, densidade, argumentação, exagero e uma fina ironia que não provoca humor em toda a platéia. É inegável que Lorena Lobato trabalha com os sentimentos do público. A história narrada sob a ótica de Anna nos faz questionar a veracidade de sua trajetória e de sua índole. Talvez, não conseguiu transformar seu filho em um grande concertista, mas certamente usou o talento dele para contar história e sobreviver, afinal ela poderia estar roubando ou matando, mas está trabalhando honestamente.

Alessandra Sardeto é graduanda em Letras e Literaturas correspondentes, pela Universidade Estadual de Maringá.

(Texto escrito como exercício da oficina Cultura da Crítica, no âmbito da Mostra de Teatro Contemporâneo. Não possui caráter valorativo).

sábado, 11 de agosto de 2012

Música e uns trocados: o resto, deixa para lá...


Daniel Grajew e Lorena Lobato / foto: Rafael Saes

Exercício crítico por Thaís Tolentino

Impossível seria compreender as razões de Anna, personagem interpretada pela atriz, cantora e bailarina Lorena Lobato, sem deixar-se levar pelo universo sinestésico da música clássica. De um lado, uma mãe cujas aspirações projetam-se na imagem do filho. De outro, ao piano, guiado pela autoridade incisiva da matriarca, um filho, interpretado pelo ator e músico Daniel Grajew, cuja identidade conhece-se apenas através da ótica materna. No palco, os dois atores, o instrumento de corda e uma viagem através de composições clássicas. E se a música mostra-se como insumo vital à existência de Anna, é ela que sustenta todo o curso da ação dramática em Sem conserto, peça apresentada na sexta-feira, 10, no Teatro Barracão, durante a Mostra de Teatro Contemporâneo de Maringá 2012.

A peça inicia-se com uma curiosa pontuação da personagem Anna: prestar uma espécie de consultoria acerca do processo de formação de filhos. Para ela, estes são quase que experimentos humanos e se, hoje, não se têm mais gênios como Ludwig van Beethoven (1770-1827), Franz Liszt (1811-1886) ou Heitor Villa-Lobos (1887-1959), a culpa são dos assistentes sociais, que tiram dos pais a autonomia no processo de formação. E, para Anna, tal processo exige rigidez, técnica, aperfeiçoamento e até mesmo uma dose de loucura – para o espectador, ele confunde-se com uma espécie de neurose materna. O diálogo com o público é direto e o distanciamento entre o palco e a plateia atenuam-se na medida em que a personagem exibe o seu prodígio. Prodígio, porém, gênio apenas depois que compor suas próprias músicas.

No piano, um filho. E na ordem de importância na vida de Anna, aquela parece superar a presença deste. A mãe apenas reconhece seu primogênito enquanto mediado pela música, e quando este furta-se em executar a ordem da matriarca, vê-se acuado pelo olhar impositivo da mentora. O filho, em silêncio durante toda a peça, recua-se no piano, franzino e encurvado, pondo-se a executar de maneira brilhante as composições ditadas pela mãe. É na dinamicidade da música clássica que evidencia-se aos espectadores a grande genialidade do garoto, sem que esta seja reconhecida pela figura feminina. Embora o enfrentamento entre mãe e filho tenha causado sensações de riso no público, especialmente na cena em que esta sobe no banco do piano para expressar sua superioridade em relação a ele, a densidade psicológica da cena transporta o espectador para o ponto de vista do garoto, cuja voz projeta-se através da sua habilidade com as mãos e nada mais.

Anna vê na música sua única esperança de vida: alimento não só para a alma, de retorno aos êxtases da infância na casa do avô antes de sua fuga à Argentina, mas também para o corpo físico, convidando, num tom ligeiramente irônico, os espectadores a colaborarem monetariamente com a apresentação, já que as habilidades exibidas pelo garoto são também a forma de subsistência da família. É na música que, afinal, Anna encontrou a razão para que as atrocidades do contexto da guerra na Rússia pudessem ser superadas. A razão de Anna encontra-se materializada na forma de um filho; um filho que ela mesma construiu. Sua vida resume-se aí, seu filho, sua música. O resto, “Deixa pra lá...”.

Thaís Tolentino é professora na rede pública de ensino e integrante do grupo de Crítica Literária Materialista na Universidade Estadual de Maringá.

(Texto escrito como exercício da oficina Cultura da Crítica, no âmbito da Mostra de Teatro Contemporâneo. Não possui caráter valorativo).

"Sem Conserto" (Lorena Lobato/SP) - 10/08














Fotos: Rafael Saes

Pacto do teatro-concerto

A atriz Lorena Lobato / foto: Rafael Saes

Exercício crítico por Julia Nascimento

O teatro estabelece pacto de ficção entre os envolvidos. O seu poder, entretanto, reside em utilizar a invenção para proporcionar reflexão sobre a realidade. A peça Sem conserto (Lorena Lobato/SP) apresenta, justamente, a relativização dos limites entre realidade e ficção, dentro da narrativa. Joga ora com o monólogo de Anna (Lorena Lobato), ora com a apresentação de Ivan (Daniel Grajew). Essa interessante confusão entre o que é encenação e o que é apresentação atinge o ápice quando Anna se junta à plateia como espectadora do concerto.

É tão convincente a aproximação entre atores e personagens, que no final da peça, alguns espectadores realmente deixaram dinheiro no local indicado por Anna. Confundiram a encenação com uma apresentação de verdade? Pouco possível, o interessante, contudo, é observar a vontade do público de tomar parte no espetáculo.

A peça trata, basicamente, da relação entre Anna e o filho. Ivan é condicionado, desde bebê, a se tornar um pianista, intérprete dos grandes clássicos – Mozart, Bethoven, Liszt, Villa-Lobos.

Chama atenção a dissonância entre os dois personagens. Anna, apesar de delicada, impõe ao filho – o músico-ator é um baita rapaz de quase dois metros – uma autoridade para ele incontestável. Ivan é retraído, não se tem a oportunidade de ouvir a sua voz em cena. É com muita facilidade, portanto, que o espectador julga a mãe por ter imposto ao filho uma vida destinada ao piano. Mas nada na peça é tão simples.

Anna foi uma criança pobre, que, como seu filho, foi condenada a conviver com os pianos. Sua paixão pelo instrumento não foi uma escolha própria, nascera de uma necessidade de sobrevivência. O piano era o seu companheiro.

A impossibilidade de se apoiar nos maniqueísmos se baseia na historicização das personagens. O caráter confidencial da narrativa fica cada vez mais emocionado, quanto mais vodka ela ingere.

O ir e vir entre passado e presente, regidos por música clássica, demonstram como conflitos políticos da Rússia impactaram fortemente a vida desta família. Anna fugiu do seu país para trabalhar como dançarina e prostituta. É hora de refletir a influência dos conflitos externos na subjetividade das pessoas. Breves relatos sobre a biografia de compositores célebres revelam que as suas vidas e obras não pertencem a um mundo ideal, distante do público comum, mas é também regida por problemáticas sociais.

É possível sobreviver de música? A narrativa perpassa questões subjetivas e pragmáticas. A música é paixão, mas é também a maneira encontrada para garantir a sobrevivência.

O relato dos acontecimentos, numa perspectiva histórica, torna o julgamento mais difícil e, de certa forma, desnecessário. O maniqueísmo não serve nesta peça. O piano humaniza as personagens, tornando-as mais complexas. Enfim, o revelar do interior do piano é uma metáfora para a intenção de desnudar as almas das personagens e do público.


Julia Nascimento é graduanda do curso de Letras pela Universidade Estadual de Maringá (UEM) e integrante do grupo de pesquisa Crítica Literária Materialista.


(Texto escrito como exercício da oficina Cultura da Crítica, no âmbito da Mostra de Teatro Contemporâneo. Não possui caráter valorativo).

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Piano que liberta

A atriz Lorena Lobato / Divulgação


Exercício crítico por Wilame Prado

Com atuação impecável, a atriz Lorena Lobato fez a plateia rir e chorar no espetáculo Sem conserto, apresentado hoje e amanhã, 8 e 9, no Teatro Barracão, pela 2ª Mostra de Teatro Contemporâneo em Maringá. Claro que, para isso, teve o tempo todo ao seu lado os encantamentos que só um piano bem tocado (diga-se de passagem, pelo músico Daniel Grajew) é capaz de proporcionar, transformando o espetáculo em um chamado teatro-concerto ao recitar as principais obras da música erudita. Sem conserto é curto e direto como um conto. A diferença é que este conto já vem com brilhante trilha sonora (atrapalhada apenas pelo barulho de uma feira sendo desmontada bem ao lado de um teatro sem qualquer isolamento acústico).

Com seu poder de fazer as pessoas se deixarem levar pelo enredo da história de Anna (Lorena) – uma mãe apaixonada por música que quer ir até as últimas consequências do absurdo para transformar o filho meio bobalhão de 12 anos (interpretado por Grajew) em um grande musicista – a atriz, que já foi vista no cinema em filmes como O cheiro do ralo (2007) e Hotel Atlântico (2009), preenche todo o palco com vida. Anna é uma russa, mas precisa se comunicar em português com o público. Para isso, Lorena constrói e interpreta numa língua com forte sotaque do leste europeu, o que faz a plateia suspeitar se ela é realmente brasileira. Sua beleza lânguida e alva, seu vestido preto e sua genialidade em cima do palco a transformam em uma verdadeira russa.

O espetáculo é um monólogo, mas Lorena não está sozinha. E se Grajew não participa falando, grita ao teclar no piano Mozart, Bach, Beethoven, Scriabin, Chopin, Liszt e tantos outros, exaltando, ainda mais, a emoção do discurso tragicômico da russa. O próprio piano também pode ser considerado um personagem do espetáculo. Quando Anna tira as tampas do instrumento musical, é possível flagrar o cérebro do piano trabalhar e observar seus movimentos internos Mais do que uma homenagem à Rússia, como Lorena descreveu o espetáculo, Sem conserto é também uma homenagem à música.

É a descrição da relação que Anna tem com pianos desde pequena que transforma algumas passagens do monólogo em inesquecíveis. Após alguns cálices de vodka e se deixando levar por uma emoção cortante, o relato da infância dela, quando morava na casa dos avós, local onde não havia móveis e sim apenas pianos, já que o avô era consertador de pianos, é o momento pelo qual se percebem as primeiras lágrimas saindo de um pequeno público que não lotou o Teatro Barracão. Quem não ocupou as cadeiras que ainda restavam no teatro perdeu Anna fazendo corações doerem ao dizer que, na inocência da infância, enquanto o pai vendia coisas com um apito na boca e pedalando uma bicicleta pelas ruas, o seu brinquedo era o piano, a sua máquina de escrever era um piano e até mesmo a sua cama tivera sido em um piano velho, onde o avô improvisara um colchãozinho dentro da carcaça do instrumento musical.

Outro trecho arrebatador do monólogo se dá quando a russa começa a explicar suas artimanhas para fazer com que o filho, ainda no seu ventre, já fosse se acostumando com a música clássica. Na primeira amamentação do menino, é repousando suas mãozinhas no teclado do piano que Anna diz fazê-lo entender, enquanto mamava, que seria a música que o alimentaria para a vida toda. E se, no começo, alguns poderiam até fazer juízo negativo de uma mãe que chega a tirar o filho da escola para que ele se dedique apenas ao piano, é contando a história do pai de Mozart, que chegava a bater no filho para que tocasse piano, que Anna faz a indagação mais importante do espetáculo: “Esse pai aprisionou ou libertou Mozart?”. A história da música clássica dá a resposta. Lorena, também autora do texto de Sem conserto, talvez quis dizer, no papel de Anna, que não apenas a música, mas toda e qualquer tipo de arte, pode ser sim algo que liberta a alma.

Wilame Prado é repórter e cronista do Diário de Maringá.

(Texto escrito como exercício da oficina Cultura da Crítica, no âmbito da Mostra de Teatro Contemporâneo. Não possui caráter valorativo).

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Atração dos dias 09/08 e 10/08 - "Sem Conserto" (Lorena Lobato/SP)



“Sem conserto” conta a saga de uma mulher que vai da esperança ao desencanto, à consciência da impotência de “ser” no mundo contemporâneo, que encontra na música a única salvação.  No contexto de uma encenação absurda, serve a metáfora da arte como redenção, como também o fato concreto de que, se a personagem, que nasceu em uma casa sem móveis, apenas com os pianos que o avô consertava, consegue transformar seu único filho em um grande concertista, os tempos de miséria podem estar com os dias contados.

Anna, a personagem, fugiu da Rússia ainda adolescente em decorrência “da guerra” e de um casamento arranjado com um homem de mais idade. A peça não é localizada, se concentra em contar a história dessa mulher que é a de tantas outras, portanto, “da guerra” faz referência a todas as guerras e aos danos psicológicos, morais e pessoais causados por elas. Foi com uma cia de dança, sem saber que destino tomar e só ao chegar à Argentina, percebeu que se tratava de um cabaré, onde teve que trabalhar como prostituta. Após um tempo de percalços vividos na Argentina, retorna à Rússia na esperança de casar com o homem de mais idade do qual fugiu e que agora, poderia resolver seu problema de “estar” no mundo. Mas, grávida não é mais possível casar.

A partir daí, começa a história de Anna e seu filho. O plano e as estratégias que cria, antes mesmo do filho nascer, para transformá-lo num grande pianista. Como as pedintes que estão a cada esquina do espaço urbano, que usam seus filhos dependurados na cintura como meio de sobrevivência, ela, desesperadamente se agarra na convicção de que a música é o único jeito, é a única coisa que pode fazer para que o filho sobreviva e a mantenha viva e bem alimentada. Sob o ponto de vista de quem pára confortavelmente no trânsito e observa o que essas mulheres pedintes são capazes de fazer, Anna também desenvolve uma lógica irracional, constituindo uma rotina para o filho que contraria totalmente as regras de uma educação feliz e saudável, chegando mesmo a crer que a felicidade de que dizem por aí é só uma sensação de felicidade, ...“feliz mesmo é quem consegue tocar a Passionata de Bethoven, a Rapsódia Húngara de Liszt, Villa lobos, Rachmaninoff”...

É considerada louca, perde temporariamente a guarda do filho. E como outros “loucos” da história, de outros tempos, que tiveram outros destinos, como o pai do Bethoven que bêbado batia no filho para ele tocar, ou o de Mendelssohn, o de Erich Korngold que transformaram seus filhos em crianças prodígio, Anna vê na música, não só a possibilidade de viver concretamente neste mundo, mas, a mais contundente e eficaz oportunidade de ser, de sentir e existir para além deste tempo.



Ao longo do monólogo, executado pela atriz, um pianista tocará obras do repertório erudito como Scriabin Estudos Op. 2, n 1, Op. 8, n12; Rachmaninoff, Preludio em sol menor – Op.23, n 5;Liszt – Rapsódia Húngara , n11; Satie - Trois Gymnopédies. São obras que, mesmo aos  não amantes do estilo, difícil é sair ileso ao ouví-las ao vivo em função do virtuosismo e da grandeza dessas criações.

A escolha dessas obras e do tipo de pianista, virtuoso e carismático, é para que o público compreenda sensorialmente essa mulher, fazendo da música esse canal, por onde o público  percorre e embarca nas lembranças e questões a personagem.

Apesar de pessoal, a experiência com música, em geral é significativa, por isso Anna  mostra o filho tocando, para sensibilizar o público e atingir o seu objetivo, dinheiro. Através só do discurso,  talvez ela não fosse tão bem sucedida.



Atores: Daniel Grajew e Lorena Lobato
Texto/Argumento: Lorena Lobato

Lorena Lobato tem formação em artes cênicas, música e dança. 
Daniel Grajew é músico, arranjador e compositor